quinta-feira, abril 9

A Histórias das Telenovelas

A cada chacoalhada, suas pulseiras emitiam um som de cascavel. Nervoso, perguntava: tô certo ou tô errado? Para agradar a amante – “viúva” de um herói milagreiro de uma cidadezinha do sertão nordestino –, ele, um poderoso latifundiário manipulador dos políticos locais, não se importava em ficar de quatro arfando como um cão. Com essas e outras cenas, o ator Lima Duarte imortalizou a figura de Sinhozinho Malta como uma das mais populares da televisão no Brasil.

Assim como ele, há outros personagens marcantes que saltaram das telinhas para povoar o imaginário dos brasileiros. Odete Roitman, por exemplo, foi uma das mais odiadas vilãs de todos os tempos. Interpretada pela atriz Beatriz Segall, ela acabou assassinada e descobrir quem a matou virou assunto predileto de muita gente. A popularidade desses personagens na cultura nacional é fruto de um dos gêneros televisivos de maior sucesso no país: a telenovela.

A primeira novela surgiu na televisão brasileira em dezembro de 1951. Ao longo dos anos 50 e 60, a teledramaturgia passou por várias transformações em seu conteúdo e no seu formato. Nos primeiros anos, a ausência do videoteipe fazia com que elas fossem exibidas ao vivo e apenas em dois dias por semana. Na década de 60, já com a possibilidade de serem gravadas, ganharam episódios diários, o que foi fundamental para prender a atenção dos telespectadores. Nos anos 70, as novelas viraram definitivamente um fenômeno de audiência, cuja repercussão extrapolou as fronteiras do país.

Produto cultural nacional bem-sucedido dentro e fora do Brasil, as novelas ainda são alvo do preconceito intelectual. Nas últimas décadas, no entanto, abriu-se espaço no meio acadêmico para estudos e pesquisas sobre o fenômeno de forma a vê-lo com olhos mais favoráveis. Mas, independente da opinião de seus críticos e estudiosos e dos altos e baixos nos seus índices de audiência, elas se tornaram um dos entretenimentos prediletos dos brasileiros. Prova disso é que “Roque Santeiro”, a novela que tinha Sinhozinho Malta como um dos personagens principais, alcançou 74% de média de audiência [fonte: IBOPE], algo raramente visto na história da TV. Breve história das novelas no Brasil

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, as teledramaturgias surgiram nos anos 50 a partir da adaptação das novelas de rádio para o então novo meio de comunicação. O que já era sucesso em um desde os anos 1930 não demorou muito para conquistar fãs no outro.Em 1951 foi ao ar “Sua Vida Me Pertence”, a primeira telenovela brasileira. Foram quinze capítulos exibidos ao vivo de terças e quintas-feiras pela TV Tupi. Na década seguinte as novelas ganhariam capítulos diários. Graças ao surgimento do videoteipe, os episódios podiam ser gravados e a exibição deles diariamente foi fundamental para cativar a audiência. As primeiras novelas nesse formato foram adaptações de teledramaturgias latinas, vindas do México, Argentina e Cuba, como “A Moça que Veio de Longe” (TV Excelsior, 1964) e “O Direito de Nascer” (TV Tupi, 1965).

No final dos anos 60, as novelas finalmente ganharam uma cara brasileira. Até então, elas eram adaptações ou seguidoras do estilo dramalhão que dominava as teledramaturgias latino-americanas. Mas, em 1968, estreou “Beto Rockfeller”, produzida pela TV Tupi. Escrita por Bráulio Pedroso e dirigida por Walter Avancini e Lima Duarte, ela rompeu com o estilo melodramático e construiu uma história mais descontraída, com diálogos coloquiais, temas bem-humorados, trilha sonora pop e uma estética moderna, que dava uma cara brasileira e atualizada ao formato.

O sucesso de “Beto Rockfeller” fez com que as emissoras abandonassem definitivamente o estilo dramalhão importado dos países latino-americanos. Em 1969, a Globo aderiu ao novo modelo e encomendou a Janete Clair que adaptasse para a TV uma história que ela já tinha escrito para a rádio. “Véu de Noiva” virou um sucesso e transformou a atriz Regina Duarte na “namoradinha” do Brasil. Nos anos 70, as novelas conquistaram elevados índices de audiência e uma boa fatia do mercado publicitário. Globo e Tupi dominaram a produção de novelas durante a década. Sucessos como “Irmãos Coragem” e “Pecado Capital”, de Janete Clair, e “O Bem Amado” e “Saramandaia”, de Dias Gomes, estabeleceram o início da hegemonia do modelo de novelas feitas pela Rede Globo. A Tupi, que havia iniciado a transformação da estética da teledramaturgia com “Beto Rockfeller”, conseguiu produzir outros sucessos como “Mulheres de Areia” e “O Profeta”, de Ivani Ribeiro, e “Éramos Seis”, de Sílvio de Abreu e Rubens Ewald Filho.

Quando começaram os anos 80, a estrutura de produção de teledramaturgias no Brasil já era tão sofisticada e profissional que as novelas de sucesso por aqui viraram produtos de exportação. Cerca de cem países, de Portugal à China, da Rússia à Austrália, chegaram a acompanhar os episódios dublados de produções como “Escrava Isaura” ou “Dancin Days”. A indústria nacional das telenovelas se concentrou na Rede Globo. Sua hegemonia foi poucas vezes ameaçadas desde a década de 80. Produções inovadoras e requintadas como “Guerra dos Sexos”, “Vale Tudo”, “Roque Santeiro”, “Terra Nostra” e “O Clone”, entre outras, garantiram os melhores índices de audiência da TV brasileira. Liderança que foi abalada somente em alguns momentos, como quando a Rede Manchete lançou a novela “Pantanal”, em 1990, ou mais recentemente com as produções da Rede Record, como “Caminhos do Coração” e “Os Mutantes”, e as adaptações de novelas latino-americanas produzidas pelo SBT.

Apesar de ainda ser um dos gêneros preferidos dos brasileiros, a audiência das novelas caiu no novo milênio, provavelmente devido à concorrência de novas opções que se tornaram acessíveis à população, como a TV a cabo e a internet. A audiência das novelas da Globo atingiu em 2008 cerca de 40 milhões de espectadores diariamente, enquanto três anos antes a audiência era de 60 milhões. Apesar da queda dentro do país, as novelas brasileiras ainda continuam a ser um valorizado produto de exportação. Segundo projeções da Globo, no começo dos anos 2000 as novelas comercializadas pela emissora foram assistidas por cerca de 70 milhões de espectadores anualmente no exterior.

As telenovelas e o comportamento dos brasileiros Há décadas as telenovelas têm sido classificadas como um produto de entretenimento de pouco ou nenhum valor cultural e, até mesmo, de serem prejudiciais aos seus telespectadores. Vários fatores políticos e estéticos sustentam essa análise e alimentam o preconceito intelectual contra as telenovelas, mesmo quando são escritas por respeitados dramaturgos como Dias Gomes.

Desde o final dos anos 80, no entanto, emergiu uma nova visão sobre elas. Num momento, em que a produção das teledramaturgias atingia seu melhor momento criativo e de audiência, elas passam a ser observadas sob novas perspectivas por alguns pesquisadores. Para eles, as telenovelas constituíram-se como um gênero que dialoga com o público e que não necessariamente impõe uma visão de mundo. Sob esse olhar, os seus espectadores participam efetivamente da construção de sentidos que as teledramaturgias trazem.

Apesar de extensas – chegam a ficar no ar durante dez meses – e sujeitas a várias interferências, da emissora, dos patrocinadores, da sociedade civil, as telenovelas no Brasil são obras autorais. Ao longo das décadas, muitos dos seus escritores e diretores têm se engajado em levar por meio das tramas desenvolvidas idéias e valores progressistas à população. Numa espécie de merchandising social, questões como gravidez indesejada e na adolescência, AIDS e o uso de preservativos, formas de relacionamento sexual mais abertas e flexíveis, as consequências do alcoolismo, o drama das crianças desaparecidas e a problemática agrária no Brasil têm sido colocadas e gerado discussões e reflexões nas diferentes classes sociais e regiões do país.

Nesse sentido, estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram que as telenovelas têm influenciado o comportamento dos brasileiros a longo prazo. As variações na taxa de natalidade e no número de divórcios no país nas últimas décadas, por exemplo, podem ter como uma de suas várias causas o modelo das famílias retratadas nas novelas televisivas. Ao apresentarem núcleos familiares com poucos filhos e homens e mulheres, que mesmo separados ou divorciados, levam uma vida feliz, as novelas estabelecem referências de comportamento que, segundo esses estudos, influenciam os seus telespectadores .

Um dos fatores que contribuem para essa influência é que desde os anos 70 as telenovelas brasileiras tornaram-se mais realistas, distanciando-se do exagero melodramático que as caracterizavam até então. Em seu estudo sobre o fenômeno, no livro “Telenovela, consumo e gênero”, a antropóloga Heloísa Buarque de Almeida mostra que os telespectadores reagem criticamente aos conteúdos das novelas principalmente em relação aos temas políticos, morais – destacadamente em questões relativas à sexualidade – e quanto à promoção do consumo feita pelo gênero.Na obra “Vivendo com a Telenovela”, as pesquisadoras Maria Immacolata Lopes, Sílvia Borelli e Vera Resende afirmam que a telenovela, a partir dos personagens que inserem no cotidiano de seus espectadores, coloca modelos de comportamento que servem para o debate, a interpretação, a crítica, a projeção ou a rejeição dos telespectadores.

Assim, os temas propostos pelas novelas – sejam políticos, como uma crítica ao populismo e ao coronelismo, ou morais, como o machismo – passam a ser considerados de interesse público. Momentos inesquecíveis das telenovelas brasileiras Dos anos 1950 até 2009 a televisão brasileira produziu e exibiu cerca de 800 novelas. Algumas delas apresentaram personagens, cenas e sequências que ficaram na memória de várias gerações.

Em 1975, a Globo levou ao ar o capítulo inicial de “Pecado Capital”, novela de Janete Clair escrita às pressas para substituir “Roque Santeiro”, que havia sido censurada. Nele, está uma das sequências mais antológicas das telenovelas. Após um assalto a banco no Rio de Janeiro, os bandidos embarcam num táxi dirigido por Carlão (interpretado por Francisco Cuoco) e acabam esquecendo no interior do veículo uma mala com o dinheiro roubado. A partir daí se constrói todo o dilema moral e a dubiedade do caráter do taxista que estarão no centro da trama ao longo dos 167 capítulos da novela.

Outro momento marcante das telenovelas é uma das inúmeras cenas de pastelão envolvendo os atores Paulo Autran e Fernanda Montenegro na novela “Guerra dos Sexos”, escrita por Sílvio de Abreu e que foi ao ar entre junho de 1983 e janeiro de 1984 pela Rede Globo. Os personagens Bimbo e Charlô, primos obrigados a conviver sob o mesmo teto por conta de uma herança, discutem e iniciam uma hilária guerra de guloseimas durante o café da manhã.

O dramaturgo Dias Gomes escreveu algumas das melhores telenovelas brasileiras, como “Roque Santeiro”, “O Bem Amado” e “Sinal de Alerta”. Entre os inúmeros personagens inesquecíveis que criou estão os da novela “Saramandaia”, que foi ao ar de maio a dezembro de 1976 na Globo. Dias Gomes explora o realismo fantástico no gênero ao introduzir na estranha cidade de Bole-Bole, no sertão nordestino, tipos prá lá de surreais. Entre eles, João Gibão, que esconde sob as roupas asas como as de um anjo, Zico Rosado, que solta formigas pelo nariz, Marcina, uma moça que quando fica excitada vira uma brasa ambulante, e um professor que vira lobisomen e não dorme.

Em 1990, a Rede Manchete de Televisão abalou a hegemonia da Globo ao lançar a novela “Pantanal”, escrita por Benedito Ruy Barbosa. Os cenários naturais da região do pantanal mato-grossense, a fauna e flora surpreendentes, cenas sensuais, que incluíram nu frontal de uma das protagonistas, fizeram com que a novela atingisse elevados índices de audiência. Pela primeira vez, a beleza natural da região pantaneira era divulgada em horário nobre para todo o Brasil.

Mas, definitivamente, um dos momentos mais marcantes da história das telenovelas é uma das cenas de “Vale Tudo”, de Gilberto Braga, que foi ao ar entre maio de 1988 e janeiro de 1989 pela Rede Globo. Na história, que teve no final o suspense sobre quem matou Odete Roitman, a discussão sobre se a honestidade vale a pena ou não no Brasil tem um momento antológico quando o corrupto e golpista empresário Marco Aurélio, interpretado pelo ator Reginaldo Faria, ao fugir do país manda uma banana para todos. Nada mais emblemático de ser retratado no gênero de maior popularidade no país.

Fonte de pesquisa: HSW

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